Depoimento de um sobrevivente

Minha vida poderia ter sido um tanto normal, monótona mais precisamente, se não fosse por um certo acontecimento que a modificou completamente. Mas um pouco de adrenalina não faz mal à ninguém. Digo isso hoje que já estou muito bem e recuperado do susto, mas na época a situação deu medo. Se peixe morresse do coração, eu já tinha ido para o beleléu.

Para contar a história, voltarei um pouco mais no passado. Lembro de um dia realmente feliz em minha vida. Talvez o mais feliz de todos! Estava em meu aquário, nadando faceiro quando avistei algum daqueles seres gigantescos me olhando por entre o vidro. Cheguei a me assustar mas, reparando melhor, esse não era tão grande assim. Talvez fosse um dos filhotes da espécie. E notei que ele me apontava e gritava algo a uma pessoa próxima (depois entendi ser sua mãe). De repente uma rede entrou no copo e, num susto tentei desviarme, mas foi em vão. Esta me pegou e jogou-me numa espécie de aquário de plástico. Revoltado por terem me tirado da minha casa sem mais nem menos, um pouco zonzo pelo ocorrido também, deparei-me novamente com aquela mesma carinha que antes me olhava no vidro. Agora meio contorcida pelo plástico, mesmo assim puder ver um sorriso nela. Um sorriso singelo, o que me confortou! E assim ganhei um novo lar!

Minha nova casa era um ambiente gostoso de morar. Haviam apenas duas pessoas nela: um menino - aquela do sorriso - e sua mãe. Mais tarde vi mais alguém que andava por ali, que depois descobri ser a empregada da casa. E ainda ganhei um nome simpático: Bob Peixe!

Nas manhãs, meu dono acordava e ia direto me dar 'bom dia' e alimentar-me. Era divertido e acolhedor! Entre uma comida e outra, sentia seu dedo em minha cabeça como um cafuné. Assim os dias foram passando numa rotina agradável.

Então chegou o dia que tudo mudou! A rotina foi a primeira. Descobri que a mãe do meu dono ia viajar e ele ia ficar em uma outra casa. Como eu não poderia ficar sozinho por tantos dias (ainda bem que lembraram de mim) também fui passar uns dias fora.

O novo lugar era bastante hospitaleiro. Viviam três pessoas ali. Me colocaram em um ambiente bem claro, arejado. Bastante movimentado até. Gostei! De uma lado tinha uma máquina estranha, que saia fogo de uns buraquinhos. Fantástico! Do outro, hora ou outra, alguém puxava uma espécie de alavanca e caia muita água dentro de um buraco. Muito legal! E tudo corria bem até chegar a vez que cruzei com a morte cara-a-cara!

Era uma segunda-feira (conto os dias de acordo com a rotina dos moradores da casa)! Durante a manhã foi tudo tranqüilo como de costume. Foi após o meio-dia que tudo começou. Uma das moradoras (que inclusive é dona desse blog e me deixou dar meu depoimento sobre o fato - talvez dor na consciência) foi pegar alguma coisa numa prateleira que ficava acima da minha cabeça. Eu, meio sonolento ainda, dei uma circulada pelo aquário para mexer um pouco minhas nadadeiras depois do cochilo pós-almoço que havia feito. De repente vi estrelas cadentes, tudo se desfigurou junto a um barulho ensurdecedor. Não só me acordei instantaneamente, como quase morri! Água, necessitava de água! Meu aquário tinha virado caquinhos, eu agonizando, tentando buscar ajuda... Certo, me arrumaram uma nova casa. Um pouco estranha, mas lá havia água. Ufa! Assim pude respirar de novo!

Mas aquele lugar estava estranho, um pouco desconfortável, não sei dizer direito. Se tivesse músculos, naquele momento eles estariam completamente enrijecidos e tensos. Que dia! Que susto! E ali nadei um pouco pra tentar me ambientar, entender o que tinha acontecido. Umas horas depois, a Ane apareceu com um aquário novo. Era legal meu novo lar, maior, mesmo assim, eu estava profundamente bravo com ela! Magoado por ter quebrado minha velha casa e, mais ainda por quase me matar. Sei que, segundo ela, foi sem querer mas, como poderia rir em uma situação daquelas? Estava de mau-humor e me enraivecia dela ir a todo momento ver se eu estava bem. Depois de tudo o que passei, EU NÃO ESTAVA BEM. Estava transtornado, machucado (não fisicamente, mas emocionalmente). Sim, estava estressado e queria ficar só! Creio que até febre me deu naquela noite, mal consegui dormir e, nos próximos dias a fome não veio. Fora que aquela água era muito esquisita, não me sentia bem nela.

Hoje vejo que a Ane fez de tudo para eu não morrer (como disse, quem sabe seja apenas consciência pesada), mesmo assim, por todo o susto dos dois (sei que ela também levou um baita susto) me afeiçoei a ela. Sempre vinha me dizer 'bom dia', conversar comigo... gostava disso! Na época em que eu estava ruim e ela me levava à Pet, fiquei com medo dela me deixar por lá e substituir-me por outro, mas isso não ocorreu. E no seu olhar vi um toque de carinho, o que fez eu confiar nela, apesar de tudo.

Por isso que a desculpo por esse incidente. Podia estar morto, no mar espiritual junto aos meus entes queridos que já partiram, mas ainda não foi dessa vez. E há males que vêm para o bem! Já voltei para minha casa mas, de vez em quando ela vêm me visitar. Fico muito feliz e não paro um minuto dentro do aquário quando a vejo. As pessoas se apegam aos bichos, mas os bichos também se apegam às pessoas. Só fiquei triste por uma coisa que descobri nesses últimos tempos: o prato preferido da Ane é sushi!! Humpf, ninguém é perfeito!

Bob Peixe

Post "Um pequeno incidente"  - (Onde tudo começou!)

Comentários

  1. O texto é de sua autoria?

    vc escreve bem.. blog legal, agora entra lá no meu!!

    heheh, não resistí (desculpa)!!!

    cara, que visão legal essa de você dá uma chance para o Bob dizer tudo o que está engasgado nas guelras dele..

    gostei do texto e da forma como vc se colocou no lugar de um simples peixe (que pra vc é bem importante)...

    coitado dele, deve ter sido horrivel passar por tudo aquilo...

    se é ruim para nos quando estamos nos afogando, imagina p ele ter ficado sem agua??

    abraços !!

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  2. Nossa muito massa, foi divertido de ler!

    Lembrei de um dia que eu era pequenininha que fui na casa de uma amiga da minha mãe, e peguei o peixe dela do aquario, ele tava quase morrendo na minha mão, se ela ñ tivesse chegado na hora ...coitado..rsrsrs

    Pretendo ter um peixe, quando eu tiver minha casa, é um animal que ñ faz farra no sofá, nem sobe em cima do fogão rsrsrs ...

    Muito legal suas histórias!

    Bjo!

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  3. Boa noite!

    Olha sua postagem me surpreendeu.
    Primeiro, vou confessar que de início eu achava que seria uma postagem sobre alguém que escapou com vida de um acidente.

    De todo, meus pensamentos não estavam errados, mas eis que surge um elemento surpresa: bob peixe!

    Olha, eu me diverti muito lendo sua postagem e de saber que o herói se salvou e te desculpou pelo incidente.

    Você é uma escritora excelente, gostei muito de ter lido cada linha com calma e me deixar envolver com o seu trabalho que é muito bom por sinal.

    Só não gostei de uma coisa: a história do sushi! uahauhuahau...
    Tudo bem, como nosso amigo mesmo disse, ninguém é perfeito.
    hehehe...

    Bjoks e parabéns pelo ótimo blog.

    http://ocaoinfiel.blogspot.com/

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  4. o RJ, que fez o primeiro comentário perguntou se o texto é de sua autoria.
    Eu diria mais: diria pra você pegar este texto e inscrever no próximo concurso literário que aparecer.
    Uma crônica de primeira...

    Venha me visitar, venha:
    www.euzer.blogspot.com

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  5. humm belo texto confesso que li na correria pois estou no trabalho...mas a noite vou ler os outros posts que deve ser ainda mais interessantes =)

    Beijoss

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  6. Fiquei com dó dele descobrir que a Ane adora sushi. muito bom o texto, e o sushi no final deu o toque inesperado.

    abs

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  7. Que delicia de narrativa! Conseguiu me conquistar entre peixes, aquarios e sensacoes. Acho que nunca e demais dizer: Escreve muito bem. Espero ler mais. Abrcs

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  8. Ótimo texto!
    Gosto de textos assim, curti pra caramba e siga os conselhos de se inscreve em concursos de literatura, vc ganahrá facil!
    Parabens!

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  9. Bob,o peixe escritor. bacana a idéia, mas se eu deixasse meu cachorro escrever tava danado, ia jogar muita m no ventilador,melhor deixar ele sem esse poder,até ele criar seu próprio blog... se até planta pode!

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  10. Que lega! =D

    Parecia que vc ia falar de algueme do nada o narrador era um peixe, muito bom!

    O final é mt engraçado!

    abraços e parabéns, gostei mt do post

    passa lá
    http://som10.blogspot.com/

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  11. Que bunitinho *_*
    Adorei o texto!
    hehehehehehe
    tadinho do peixe =/

    =***

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  12. Ane! Que bom que começou a seguir meu blog! Eu tinha perdido o endereço do seu, por isso acabei sumindo.

    Agora já estou seguindo suas coisas da vida ;)

    beijo!

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  13. Uma autoria e tanto!!!
    Vale a pena entrar aqui!!!Encontrei diversos textos fantásticos!!Com mais calma voltarei pra bisbilhotar...rsrs
    Até!!

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  14. por que um peixe?! não me entenda mal, adorei o texto, mas fiquei curiosa: por que um peixe?! rsrsrsrs

    beijocas

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