Um retrato, uma história

Entre uma brincadeira e outra, João resolveu descer até a garagem para buscar seu skate. Encontrou-o encima de caixas e mais caixas de coisas empilhadas num canto. Subiu em um banquinho para pegar mas, ao conseguir alcançá-lo, desequilibrou-se e veio abaixo, junto com algumas caixas que se abriram pelo chão e delas se espalharam centenas de fotos antigas. João, curioso por natureza e amante de fotografias, pegou algumas para ver de perto e, uma em especial chamou sua atenção. Era de um homem aparentando a idade de seu pai, mas com roupas antigas de frentista. "Estranho, meu pai é contador", pensou. Na foto preto e branco e muito gasta pelo tempo não dava para distinguir bem onde seria, mas certo que não era no Brasil. Sua fisionomia era idêntica a de seu pai. Seria alguém da família? Foi correndo chamá-lo para perguntar sobre o retrato encontrado.
- Pai, pai, olha o que encontrei lá na garagem! Você conhece essa pessoa?
Seu pai, ao olhar a figura, encheu seus olhos d'água. Quanto tempo não via aquele retrato. Era de seu pai, na época da segunda guerra. A última notícia que havia mandado veio com essa foto. Depois nunca mais ouviram falar dele. Recordava pouco, afinal tinha só cinco anos, mas não esquecia do quanto sua mãe chorava de saudade e tristezas pela falta do marido.
Olhou para o filho, com a foto em mãos, e disse:
- É seu avô! Ele participou da segunda guerra mundial. Não lembro direito, mas, segundo sua avó, houve uma época em que teve que ocultar-se através de nomes e profissões diferentes para não ser encontrado pelos inimigos. Nessa foto estava trabalhando como frentista. Também trabalhou como bombeiro e carteiro, se me lembro bem. Foi uma fase difícil, tanto pra nós como pra ele em um país diferente, longe de seus familiares.
- Nossa, meu avô participou da segunda guerra?! Que legal! Espera até meus amigos saberem disso... - E saiu correndo pela porta da cozinha.
O pai ficou ali pensativo, vendo a foto, e imaginando como teria sido sua vida se aquela figura ali do retrato não tivesse partido para a guerra e sim, permanecido com sua família. Talvez tudo teria sido mais fácil para eles. Talvez.
 

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Conto-treino para o "II CONCURSO LITERÁRIO LIVRO ERRANTE", da comunidade Livro Errante do Orkut.

Comentários

  1. Oi,

    Esse texto está lindo!!
    Às vezes me ponho a pensar: porque as coisas são desse jeito?
    Como seriam se alguém não tivesse feito isso?
    A pergunta do pai de como seria sua vida se o avô não tivesse ido à guerra...
    É legítima.
    Mas como poderia ter certeza de que seria melhor?
    Como não saber se seria mais difícil?
    Ou não faria diferença?
    Esse texto me trouxe muitas reflexões.
    Parabéns, mesmo.

    Beijos,

    Girl

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  2. Para um treino está ótimo, imagino que vai enviar para concorrer!

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